Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Este País Não é Para Ultras

(Na vida como no Estádio. Ou és Polícia ou és Ladrão)

Tenho tentado evitar escrever acerca do assunto do momento. Apetece-me a postura Rui Loura. No dia em que “rebentou” o Apito Dourado este “jornalista” estava como pivot de um programa num qualquer canal da RTP. Um espectador liga e pergunta porque não falam do Apito Dourado? A resposta do douto jornalista: “Isto é um programa de futebol. Isso é um assunto de justiça”. Resposta lapidar de um “avençado” profissional.

Agora, passados quase seis dias desde que a mediática operação da PSP irrompeu pelos telejornais, e a poeira “assentou” o circo mediático volta-se para assuntos na realidade mais importantes: o Oliveira e Costa é detido no caso BPN, a Ministra da Educação recua nas exigências aos professores (acho estranho como uma das classes cuja vida consiste em avaliar se recusa a ser avaliada, mas enfim…) e a selecção perdeu (como se esperava…) com requintes de goleada com o Brasil.

Talvez seja o momento mais indicado para falar sobre isso. Mas queria a vossa atenção para algumas considerações:

- Acredito que a justiça é a pedra basilar de qualquer sistema democrático. (independentemente disso os autores do assalto de caçadeira em punho aos Diabos continuam provavelmente soltos apesar de identificados por uma testemunha) Pessoas que sejam responsáveis por crimes devem ser responsabilizados por tal. Mas apenas e só pelos que são responsáveis.

- Acredito que os jornalistas (como os magistrados, polícias, engenheiros, doutores, políticos etc) se dividem em bons e maus profissionais.

- Considero também que os jornalistas, como tal, têm o “dever” de informar. Acredito que não seja fácil o acesso a fontes credíveis, mas a calúnia, a mentira e especialmente o sensacionalismo nunca deveria ser uma opção.

- Considero que a violência gratuita é absolutamente estúpida e apenas geradora de mais violência.

- Finalmente, considero que a educação e formação é a principal lacuna dos portugueses.

Adiante,

A maneira como a vida privada dos envolvidos neste caso foi exposta na praça pública é vergonhosa. A maneira como o Benfica foi incluído neste caso mais vergonhosa é. Até ao momento nenhuma acusação foi deduzida mas todos estão culpados.


Querem exemplos?

Hoje almoçava sushi (Nota Para Jornalistas: sim, os gajos das claques também gostam de comida exótica) e na mesa ao meu lado dois homens falavam do “caso da semana”.

“Epah, esses gajos das claques. Uma vergonha. Viste o arsenal que tinham em casa? (Nota para Jornalistas: tacos de basebol que se vendem na Tbz? Pistolas de alarme?)”

Responde o outro. “Realmente. Sabes, esses gajos por mim eram todos apedrejados. “

“Podes crer. Olha, o Obama não quer acabar com Guantanamo? Metia-se essa escumalha lá”

Quando digo que todos estão culpados não falo das pessoas específicas. Falo de todos. Ou seja, mais uma vez, pela “infelicidade” das pessoas pertencerem a uma claque deixam de ter direitos. Todas.

Eu sinceramente estou cansado deste estereótipo. Irrita-me sobremaneira.

Querem outro exemplo?

Aqui este estaminé foi contactado pelo Expresso. Jornal que leio há mais de 3 anos com frequência semanal. Primeira frase do Jornalista: “Não sei se conhece o Expresso…”

“Não pah. Sou iletrado. Nem sei como consigo escrever aqui. Ah já sei. Uso o braço que me nasceu nas costas para teclar e verifico tudo com o olho que me nasceu na testa”´

Não usei esse tom de resposta. Simplesmente disse-lhe que conhecia o Expresso. Que gostava de A e não gostava de B no jornal ou na Revista. E assim ficou.

Gostava de ver mais alguém sem ser o habitue Daniel Seabra (homenagem lhe seja feita) a dizer as verdades. Não aquele discurso bacoco e gasto que os líderes “ultras” usavam de tempos a tempos em programas de TV “Ah, a violência é parte da sociedade”, “Ah, aqui o pessoal é mansinho”, “Ah, aqui não ganhamos dinheiro nenhum com a claque”. Essas “verdades” absolutas já não “colam”. Mas sim a verdade. Que as claques são um “melting pot” de várias tendências, culturas, gentes enfim…

Que é possível conhecer médicos (por falar nisso, parabéns MN), advogados, trolhas, desempregados, polícias (!!!), militares, estudantes, dentistas, jornalistas (!!!) bancários…enfim..tudo.

Digam isso. Digam isso e deixem de “escarrapachar” caras e nomes em jornais condenando pessoas antes dos seus julgamentos. E quando finalmente pararem de o fazer, pensem. Usem aquele órgão que porventura vos ajudou a tirar a carteira profissional. Percebam que as claques não são um problema (podem, isso sim, ter pessoas problemáticas, mas isso diariamente apanho no trânsito) e façam tão grandes manchetes com festa, bandeiras, cores e cânticos como fazem com tacos de basebol (parabéns a A BOLA por fazer 2 capas em menos de um ano dedicada a adeptos do Benfica e quantas ao Apito?).

Percebam que podem exterminar grupos mas não exterminam pessoas. Nem maneiras de pensar, percebe douto jornalista da Visão? Percebam que falam de um sociedade constituída por jovens que estão a ser formados em escolas sem condições, por pais que chegam do trabalho às nove da noite sem paciência para os aturar e que engolem todo o telelixo que a comunicação social lhes impinge.

Sejam profissionais. Custa-vos assim tanto? É que eu sou um gajo das claques e se houve coisa que me deixou triste esta semana foi ver um miúdo que nem 18 anos tem dizer: ”A nossa claque é fraquinha. Quero ser como aqueles que fazem merda”

Passa o tempo… Muda a gente… Mas há coisas que nunca mudam: os hipócritas!

Todos a Coimbra… Carrega Benfica !!!



PS: da quantidade de material (leia-se imagens, recortes, e-mails, etc - os quais agradeço ao pessoal) que recebi esta semana apenas usei duas (e a reportagem da Visão “apareceu” já estava a escrevê-lo). A primeira é de fácil interpretação mas para quem não o consiga fazer, eu explico: a linha que define de que lado está uma pessoa é ténue. Muito ténue. E depende de circunstâncias da vida. A segunda dispensa comentários. Uma merda. Basicamente.
publicado por velhoestilo às 22:09
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27 comentários:
De Anónimo a 24 de Novembro de 2008 às 23:29
http://www.youtube.com/watch?v=c4oDPvM1bHk


De Anónimo a 25 de Novembro de 2008 às 19:22
http://www.youtube.com/watch?v=5ZlCHDYtj6I&eurl=http://12videofoto-tifo.blogspot.com/

eu sou o lider!!!!!!!


De editor69 a 27 de Novembro de 2008 às 15:41
Antes de mais deixa-me dar -te os parabéns,tanto pelo teu blog como pela tua prosa.
Frequento há anos practicamente sozinho os jogos do Benfica em casa...
e se há coisa que me dá "pica" são os canticos e coreografias das claques...
É verdade que também já assisti a coisas absurdas de certos elementos tanto à entrada quanto à saida...mas que tu tão bem explanaste no teu texto...há gente de todo o tipo,lógico.
Deve de sim haver claques...possivelmente..."sangradas" dos maus elementos como tudo em sociedade ou tentar...digo eu...não sei é um tema lixado...
mas depois do teu texto...verdadeiramente sinto-me mais do lado das claques do que de quem quer julgar sem conhecer...

Abraço.


De Velho Estilo a 27 de Novembro de 2008 às 16:07
Acho que a questão não é estar do lado ou não das "claques" (odeio este nome) mas sim estar ou não do lado do que é correcto.

Há sempre duas faces da mesma moeda, e para opinar sobre a mesma acho que é bom que a conheçamos...

Sinceramente não me sinto nem mais nem menos Homem por pertencer ou não a uma claque, já que acredito que o que transponho para a mesma é o que sou na vida "real"... Com mais ou menos "polimento" :)

Abraço


De Anónimo a 27 de Novembro de 2008 às 18:28
Normalmente, dentro de uma sociedade, os membros que fazem merda são expulsos da sociedade, tanto por prisão ou por excumungação. Nas claques bastava mandar os membros "que não vos representam", seja por roubarem, traficarem drogas, espancar "civis", ou causar distúrbios embora.


De M. a 1 de Dezembro de 2008 às 16:48
1984

Tenho uma dificuldade imensa em não me irritar a ler jornais e revistas, mas por masoquismo, faço-o continuamente.
Até me tinha esquivado desta bala, não li esta Visão, mas azar dos azares já me irritei outra vez.
Ser jornalista é ser precário. O rapaz que escreveu esta crónica porventura não tem contrato, deve ter uma dívida à Segurança Social e se lhe acontecer alguma coisa não tem acesso a cuidados de saúde (nota: isto não é uma ameaça de uma ratazana nem de um macaco, é um facto. Aliás, temo que a metáfora repetida em termos zoológicos tenha sido exagerada. Além do mau gosto evidente.). No entanto, apesar de todos os dias ser explorado no seu trabalho, apesar de acordar e ver que o Governo ajuda quem deve 700 milhões, mas a ele nada, que nunca se viveu tão mal em Portugal, o senhor jornalista obedeceu. Escreveu aquilo que o editor queria: sangue. Com uma referência cultural para a bicharada não perceber e para poder mostrar aos seus amigos na mesa de café como esmagara e se mostrara culto e ainda agradara a quem o paga.
Nas claques - como na vida- generalizar é lixado. Não em considero nem melhor nem pior por gostar do Benfica e de ir ao estádio. Nunca andei à porrada (nem quero - sou magríssimo e qualquer um me partia todo) nem mandei uma cadeira a ninguém. Não acho que sacrificar dinheiro e tempo para ver um clube me defina, ou torne alguém digno de maior ou pior respeito. Nem isso nem a sua profissão, classe profissional ou (des)conhecimento do que é o Expresso.
Defender-se-à o jornalista que é o que se vê, que é o que salta cá para fora. Errado: é jornalista, investigue. Vai escrever sobre um grupo, meta-se no meio dele. Uma peça sobre claques onde não há a opinião de nenhum elemento de uma claque?
Não deve ter havido UM elemento de uma claque portuguesa que nas últimas semanas não tenha levado com todas as perguntas e mais algumas sobre os "drogados e traficantes" que estavam ao nosso lado no estádio. Além das conversas de café e dos olhares de lado no estádio.
O senhor jornalista é só um mau jornalista. Não investigou o suficiente, foi claramente ofensivo na linguagem e abordou um assunto que me parece pouco relevante (tem termos estatísticos os elementos dos NN que foram interrogados nem é significativo dentro dos NN, quanto mais o número de condenados...).
Queria só dar-lhe uma última dica: da próxima vez que eu for à Luz, provavelmente o ambiente vai ser pior. Artigos como os seus trazem mesmo tipos maus para as claques. Fomentam a violência e os que a querem. Conseguem mesmo que na amálgama de gente boa e menos boa, os piores se unam e se sintam em casa.
Enquanto não aprendermos a discutir e a argumentar em vez de vender sensacionalismos (mesmo que tenham toque literário), o Grande Irmão vai-se sempre rir. Nós vamos continuar a ser olhados de lado (mesmo os cidadãos responsáveis), mas o senhor vai continuar a ser um precário obediente.


De Fred Sard a 2 de Dezembro de 2008 às 12:37
Muito bem dito e escrito. Depois do comentário do M tudo o que se disser será desnecessário. Tal como este...


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